terça-feira, junho 05, 2007

Vida de boneca

Quarenta e cinco anos. Um vida inteira, muito bem vivida. Estamos juntos desde o dia 25 de fevereiro de 1962, quando nos conhecemos em um baile. Eu estava para completar meus 15 anos, ele havia passado dos 18 há pouco. Precisamos apenas do tempo de uma valsa para nos apaixonarmos. Dançamos olhando um nos olhos do outro, depois de alguns minutos, sorri para ele e desde então, dançamos pela vida, sempre buscando acertar o ritmo.
No nosso segundo encontro, fomos a uma peça de teatro, toda nossa família reunida. Eu, de vestido azul, cabelos cacheados e chapéu, bem ao gosto da minha mãe. Ele achou graça e desde então me chama de Bonequinha. Mas eu cresci, enfrentei a revolução feminina, procurei meu lugar no mercado, tornei-me uma mulher forte, decidida e bem sucedida. E ele sempre, “bonequinha” pra lá e pra cá.
Nos amamos, criamos uma família feliz. Nunca tive dúvidas, ele é o homem da minha vida, do começo ao fim. Mas, bonequinha?
Sentada à sua frente, almoçamos, ele nem imagina no que estou pensando e olha apaixonadamente para mim. Sempre tivemos uma troca de olhares intensa. Ele sorri e diz:
- Está gostando do vinho, bonequinha?
- Lógico, meu amor.
Como dizer para um homem, tantos anos depois, que você não é, nunca foi e jamais será uma bonequinha. Como dizer isso sem ser grosseira, sem destruir uma história. Por que eu não disse isso antes, você pode estar se perguntando. Porque, apesar de ser a mulher moderna que penso ser, sempre tive receio de magoá-lo com algo tão insignificante. Mas como tudo na vida, com o passar do tempo, o imperceptível tomou outras proporções. E hoje em dia, com sessenta anos de estrada, não consigo imaginar a bonequinha que ele enxerga.
- Você está longe hoje. Algum problema, bonequinha?
- Não. Eu só estava pensando...
- No que?
- Na nossa história, na nossa vida.
Vejo seus olhos marejarem. Ele sempre se emociona ao lembrar aqueles tempos. E, confesso, eu também.
- Lembro como se fosse hoje, o momento em que vi o amor da minha vida naquela festa. Pensei na mesma hora “finalmente, encontrei minha bonequinha”.
- É verdade? Você não me chama assim por conta daquele nosso segundo encontro? Por causa daquelas roupas horríveis que minha mãe me fazia usar?
- Aqueles vestidos pomposos com chapéu combinando? Jamais! Eles eram horríveis. Eu já conseguia ver a mulher moderna que você viria a ser, pela sua personalidade.
- Mas, por que boneca então?
- Não sei. Foi assim que pensei, a primeira vez que te vi. E assim continuei a vendo, ao longo de todos esses anos. Como uma bonequinha delicada, linda, que veio ao mundo para fazer dos meus dias sempre, mais felizes.
- Nada com as idéias de minha mãe então?
- Nada.
Começo a rir, perdendo o controle e beijando sua mão. Ele não entende nada.
- O que você está rindo, bonequinha? Você está mesmo estranha hoje.
- Não, não é nada – digo, recuperando o fôlego – descobri que eu simplesmente adoro quando você me chama assim.

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